"Como manter a fé em tempos filadaputa", era uma anotação de 26 de setembro como sendo o tema da próxima publicação do blog...
Inicio a escrita sem saber ainda muito bem o que dizer... O silêncio, me parece, tem sido minha melhor resposta. E talvez seja exatamente isso o que eu tenho para dizer: silencie.
Quando pensei em falar sobre isso, fiz porque sabia que era necessário. Tenho tido por missão manter subversiva pulsão de vida, a maior revolução a meu ver nestes tempos trevosos. E, para mim, tem sido muito tranquilo e muito claro isso, minha dificuldade em escrever seria como passar essa mensagem sem que parecesse algo clichê ou "made fake good vibes" (meu inglês é péssimo, mas me parece que a expressão faz sentido!! rsrsrs).
Podemos ir de Young, de filosofia Taoísta, de Lulu Santos "não haveria luz se não fosse a escuridão"...
Podemos ir de velho barbudo "a história se repete como farsa", e lembrar que a farsa é algo para que aprendamos pelo riso...
"Fé é a certeza das coisas que não se vêem". Esse é um dos únicos versículos bíblicos que mantenho decorado dos meus tempos de religiosa. E gosto muito, pq sou da filosofia de que o que fode é o fã clube, sempre, em qualquer caso! E acreditar em revolução foi e é acreditar em algo que não se vê agora.
Tô seguindo de três Ms (pra não dizer de dois Ls né...): Mandela, Mujica e Monja Cohen. Mandela dizia que é preciso no mínimo 50 anos para se ver os frutos das transformações sociais. Muji e Monja nos dão lições em discursos e práticas cotidianas, basta acompanhá-los.
A verdade é que um país racista, machista, classista, que foi colônia mas teve Corte (sui generis... único, único neste mundooo!!!), que teve independência proclamada por imperador, onde até o século XIX só se graduavam homens brancos em Portugal, que até o século XXI se manteve no mapa da fome e do analfabetismo, que teve 388 anos de escravidão e um processo absurdo de "abolição", que nunca seguiu 20 anos seguidos de respeito ao pleito democrático, que teve anistia "ampla e irrestrita", que não lida com suas dores, que não lida com suas sombras. Que elege um homem que homenageou num processo de Golpe dentro da "casa da democracia' o torturador da então presidenta eleita. Não tinha como não estar na situação que está.
Prefiro acreditar que é a primeira vez na nossa história em que sentamos no divã e nos vemos como de fato somos. Sem maquiagem. Sem ilusões. Aqueles dias dolorosos em que saímos da sessão de terapia com a verdade que descobrimos sobre nós mesmos entalada na garganta. O dia necessário para o processo de superação de uma infância violenta, repleta de abusos e maus tratos.
Mais do que a nossa história tupiniquim, é hora de superar os nacionalismos. É hora de superar essa cultura que vem como reboco do processo doloroso que são os imperialismos e processos de colonização e escravização. Que consiste em subjugar povos e modos de vida em longos processos de guerras declaradas e não declaradas, saquear riquezas naturais, violentar as energias femininas, assassinar a ancestralidade, destruir os saberes locais e grudar tudo numa massa linguística que se pretende homogênea e num recontar sua história numa impossível coesão geográfica, além da imposição de uma pretensa verdade religiosa.
Pare, em primeiro lugar, de se ver nesse espelho.
Arrisco dizer que todas culturas subjugadas viviam de forma harmônica com os recursos naturais. Respeitavam a ancestralidade. Tinham fé de que a primavera seguiria sempre depois do inverno. E sabiam, quando algo destoava nos ciclos da vida, que tinham responsabilidade nisso.
Manter a fé em tempos difíceis é a maior subversão ao sistema. Porque o contrário da fé é o medo. O ataque, ao contrário do dito popular, tá pra além de ser a melhor defesa, é fruto do desespero. E o desespero é movido pelo medo. Se a minha colheita não deu frutos, preparar uma guerra não coloca comida na mesa. É preciso semear novamente, com fé de que, fazendo novo plantio, virá a nova colheita.
Não tá na hora de sentar a bunda e cruzar os braços, batendo o pé e fazendo birra pq tudo deu errado. Tb não é hora de se render ao desespero de que qualquer ação é melhor do que nada. É hora de silenciar, observar, aprender. Manter a fé. E, de maneira consciente, e não desesperada, recomeçar a agir.
A religião é o ópio do povo. Mas a fé é a água da Vida.
P.S.: Não teve receita de "como". Apenas, mantenha. É isso! Tá dentro de vc, tenho certeza. Apenas, cultive-a.
Assinar:
Comentários (Atom)
Bruta realidade
Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...
-
Como isso está difícil... E olha que me expressar sempre foi meu forte... Eu iniciei e apaguei... Sinto que me devo um texto de 202...
-
Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...
-
Em 26 de março eu disse: Convoque seu buda. Outro dia, já faz um tempo também... Eu disse que escreveria mais... Tô tão angustiad...