quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Bruta realidade

      Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias... Talvez a vida esteja um caos sem minuto para me sentir a beira da escrita de fruição, sem mais nem por que... Apenas ser... Talvez muito pela minha insistência em esperar por momentos e lugares perfeitos para as coisas acontecerem, uma idealização da vida, um perfeccionismo que aguarda pelas condições exatas das coisas acontecerem enquanto a vida simplesmente passa...

     Agora eu simplesmente escrevo sentada no sofá, sem postura adequada, minha escrivaninha inundada de coisas aleatórias de uma mudança que (pela deusa!!!...) já faz um mês que fui obrigada a fazer e ainda não consegui me organizar, a vida real que me atropela sem sentido e faz seu próprio sentido sem me perguntar ou se importar muito se pode ou se eu vou gostar... Bruta realidade, tenho-na chamado...

   Sobre o que eu quero falar?... Não sei ao certo, acho que desses ideais irreais... O quanto essa idealização da vida e esse romantismo barato nos faz mal e nos rouba a própria vida de ser vivida... Hoje escrevi num stories que o romantismo é um ideal de morte. Fiquei refletindo sobre o que eu mesma disse... Mas é que esperar por aquilo de melhor que a vida possa ser é matar toda vida que já é...

      Fico me perguntando onde quero chegar... E sim, tenho sonhos ambiciosos e acho isso muito saudável. Ser uma mulher periférica ambiciosa já é em si mesmo um ato revolucionário. Mas... A verdade é que a gente não tem nem certeza se se está viva amanhã. E a vida é o que acontece enquanto a gente espera... 

    Não é minha especialidade, mas eu sei que numa língua indígena, há um nome para cada momento da árvore, quando se é jovem, mais velha, quando se está podre (como é o caso de Ibirapuera, que significa "pau podre"). O que indica a passagem de tempo não é um verbo (tratando um passado como perfeito ou imperfeito...), ou um adjetivo que qualifica,  mas cada ser tem um nome, é algo em si mesmo, algo que traz junto o tempo em si. 

    A mulher que sou hoje é única. E traz junto o tempo em si. A menina que fui é única do momento em que foi menina. A criança é única. A jovem é única. Um dia me achei uma colcha de retalhos. Mas hoje me tenho por inteira. Única, no momento presente em que estou. Atravessada de mudanças e medos. Com frio na barriga, sonhos, esperanças, dores curadas e cicatrizes. Não tenho como ser quem já fui. Não tenho como ser quem ainda não sou. Penso muito em sair da Educação. Mas hoje sou também a educadora frustrada. A escritora cada dia mais madura e segura, poética como sempre. Poeta sempre. A poesia me alimenta e permite estar viva. A poesia da menina, da criança que corria, era o vento na cara e o coração acelerado... Não deixa de ser a mesma poesia. Mas única. Pra mulher adulta de hoje é indissociável correr pela saúde, por um corpo sexualmente atraente. Correr não tem mais a mesma poesia. Escrever um ensaio tem poesia. A mulher, tão poeta quanto a menina, tem sua própria poesia. Cada uma uma em si mesma. 

    Então... o que está do lado de lá da ponte dos sonhos e desejos, das idealizações que buscam superar imperfeições é aquilo que não sou, não é e nem nunca será. Porque o sabor da realidade vivida é sempre único. Agradeço de alma porque as dores também não voltam. Não as louvo. Nem rechaço. Eu não seria eu sem as minhas cicatrizes e amo a mulher que sou. Mas é bom demais saber que elas não me pertencem. Sinto muito pela criança, pela menina, pela jovem, pela mulher, por cada uma de mim que precisou de dores para aprender. Sinto muito e lhes agradeço por serem tão fortes e terem parido a mim. A mulher de hoje. 

    Por que será que então insisto e busco um lugar onde não estou, um além de mim? É impossível não estar suscetível à sociedade onde se vive... Embora eu tenha consciência dos padrões impostos pelas redes sociais, sou tão humana quanto todos nós e é tão irreal não sê-lo... Onde nos vendemos cotidianamente e consumimos (gratuitamente pago com nosso tempo de vida, cada dia mais raro e mais caro...) padrões e modelos de vida de tudo aquilo que deveria ser e que não é. Ainda quando nos pretendemos desconstruídos, desconstruir sem construir é apenas deixar um espaço sempre vazio para aquilo que não é e que precisa ser. 

    Dicas de beleza, de auto aceitação, auto estima, produtividade, ganho financeiro, lacres e fechos, apontamentos, desconstruções, de tudo aquilo que precisa ser, que pode ser, mas que não é. Há sempre a próxima meta, o próximo quilo, o próximo peso, a próxima corrida, o próximo show, o próximo vídeo, o próximo nudes, o próximo rolê, a próximo dopamina. É uma corrida insana rumo a tudo aquilo que não se é, que ainda não é. 

    Eu já tive fases de mais silêncio, meditação, melhor alimentação, atividade física, menos dinheiro, mais dinheiro, mas não sabia estar feliz porque sempre tinha o próximo passo, a próxima meta, tudo aquilo que eu ainda preciso postar. Nada disso é consciente. E eu não vou rechaçar o que me permite me comunicar com mais pessoas, logo eu, que existo enquanto alma pela minha comunicação. Mas eu não quero mais matar aquilo que é. 

    Eu permito a existência das minhas imperfeições. Das minhas relações e dos meus amores que não são ou foram como eu gostaria num mundo ideal que existissem. Mas que são o que são e me fazer ser quem eu sou. 

    Aliás (e acho que vou encerrar por aqui...) em matéria de relacionamento temos PHDs sobre o que fazer, como se relacionar, o que é amar, o que é sexo bom e etc. Muita gente falando, muita gente vivendo? No mundo ideal (virtual) tudo é possível, menos a realidade. 

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Bruta realidade

      Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...