terça-feira, 2 de junho de 2020
Convoque sua preta velha
Em 26 de março eu disse: Convoque seu buda. Outro dia, já faz um tempo também... Eu disse que escreveria mais... Tô tão angustiada e sei lá o que dizer... Já se passaram tantas e diferentes revoltas na minha mente... De forma cartesianamente ordenada ou não... Como professora da rede pública, às vezes parece que vou explodir como uma panela de pressão... Termino o dia de mãe sobrecarregada com a mesma bagunça das coisas que eu resolvi pôr pra fora afim de organizar e pôr a energia pra fluir em casa que comecei nas férias e não terminei até agora... Acho que olhar pra elas me mostra bem como está dentro de mim... Não é à toa que este blog se chama "A vida é louça suja". Porque sim, a porra da louça também está bem ali me esperando... No dia em que eu acordo com a pia limpa sou a pessoa mais feliz do mundo... Às vezes tarde da noite me esforço nesse pensamento de me agradecer por isso no dia seguinte... Mas todo dia é a mesma coisa... Viveu, comeu, sujou... E tudo de novo... Digo e repito que cada um vive seu inferno pessoal nesta pandemia.. O meu, por mais mesquinho que pareça e dentre tantas coisas possíveis tem a ver com a louça suja, a bagunça na casa, a limpeza neurótica que um vírus invisível nos obriga a viver... O meu espírito de corte herança maldita desta sociedade que nos constrói distantes da nossa própria vivência básica, de saber lavar a privada onde se caga e fazer a comida que se come... Obviamente como filha da classe trabalhadora eu fui acostumada a fazer essas coisas desde pequena, como também durante muito tempo, construída a partir de um imaginário social coletivo ditado por propagandas mil e ideias a fio, novelas e afins... Como branca, me foi me dado o direito de sonhar com vencer na vida, que incluía colocar alguém pra fazer isso no meu lugar... Durante muito tempo sonhei com o dia em que meu salário daria para pagar alguém pra limpar a minha casa, até pouco a pouco reconhecer o ideal escravagista que existe por trás disso... Eu nem sei bem do que eu iria dizer hoje, faz tanto tempo que venho adiando essa publicação... Mas são tantas, tantas, tantas coisas a dizer e coisa nenhuma... Estamos tão cansados de tantas informações o tempo todo, nosso contato com as pessoas neste momento se dá majoritariamente por meio de dados... Me angustiava o receio de escrever pra ninguém... pq ninguém neste momento teria paciência pra ler mais nada... Durante um tempo eu queria organizar as ideias, mas já faz um tempo que eu venho questionando esse padrão cartesiano, europeu, abnteísta, de se dizer no mundo enquanto que por aqui a gente sempre foi meio que isso... Tudo junto e misturado... a gente é meio sínteses, meio sincronia... Por isso a escola me angustia, cheia de técnicas, batalha naval de habilidades e competências e conteúdos e eu me pergunto, pra quem?... Porque numa hora eu me sinto uma jesuita laçando alunos e por outro lado uma necessidade de garantir acesso a quem não tem... Até quase o início do século XX negros e negras não podiam frequentar a escola... Aos donos do territórios, conquistar, catequizar... Aos imigrados à força, dividir, não permitir o acesso à língua e à cultura... Essa loucura toda segue sendo os mesmos traços de todo esse sistema... Tentando uma normalidade em meio ao caos... E essa normalidade, tem outro nome, normatismo... Não é pra dar espaço ao fora do padrão... Não dá pra não sistematizar... Tudo precisa estar sob controle. Cabeça vazia, oficina da revolução. Chego ao final do dia, vou meditar. Continuo a convocar meu buda. Preciso silenciar todos os dias as diversas vozes pra ouvir a minha própria voz. Minha maior revolução é conhecer minha verdade interior que me permite, me autoriza ainda a ser eu mesma, vomitando do jeito que quero o meu próprio texto em parágrafo único. Que me permite ser "imperfeita" e dar a chance a todes sentirem que sentimos a partir do mesmo caos... Convoque seu buda. Mas hoje, terça feira. convoque sua preta velha. Escute-a. Vidas negras importam. E facistas não passarão.
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Bruta realidade
Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...
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Como isso está difícil... E olha que me expressar sempre foi meu forte... Eu iniciei e apaguei... Sinto que me devo um texto de 202...
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