28 de dezembro de 2020. Como uma boa escritora, eu preciso falar alguma coisa sobre essa porra toda... Não porque eu ouse impactar a humanidade com minhas palavras únicas, apesar de meu ego adorar essa ideia, e, eu também gosto de satisfazê-lo, diga-se bem a verdade, faz parte da existência. Talvez por essa ilusão, ou por um colapsar de ideias que precisa sair, ou pela simples satisfação que o ato de criar algo traz ao chakra sexual, essa potência de vida e o tesão associado ao tentar procriar.
Sim, minha vida, como a de muita gente ultimamente, também virou um misto entre a ciência social, a literatura das redes e a linguagem holística... E sabe, eu não acho isso perjorativo, tampouco acredito que qualquer desses elementos, aspectos, visões, ser/estar no mundo é o que nos salvará a nós, humanidade. Dizem que há 2020 anos um cara morreu torturado, justamente fazendo isso, salvando-nos. Se pá não entenderam ainda que desde então não precisamos mais de salvadores da humanidade. A ideia, era tipo, que a partir de então, cada um seria capaz de salvar a si mesmo.
É tão doido como pra mim hoje discursos de coletividade me soam barbaramente (essa expressão não está aqui à toa...) egoísticos. Essa ideia de que o outro precisa de mim e da minha luta para ser salvo... E, mano, eu nem de longe tô pensando em individualidade, porque não existe vida individual. Eu, com MEU emprego, MEU nootebook, MINHA formação acadêmica, no MEU apartamento, SOZINHA, tô tão sem vacina quanto todos brasileiros e brasileiras que votaram ou não na bozolândia (histórico de ascensão que começou na geração Tiririca, é preciso afirmar).
A questão é que a vida além da minha vida impacta na minha vida. Fato. Não existem muros, grades ou mares que consigam desfigurar essa realidade. Galera há 520 anos tava aqui de boa, uns maluco com o discurso civilizatório atravessam o mar e trouxeram várias gripezinhas. Mas, como disse o Brecht, a gente só se dá conta quando fode a gente.
Defender causas, é defender-se. Muitas vezes, está mais ligado a não conceber perder um lugar de fala. Vou defender o outro, pobre coitado, porque eu preciso sair nessa foto, falar esse discurso, não calar minha voz, para que não doa a minha garganta sobrecarregada de emoções minhas com as quais eu não sei lidar... Seguimos diminuindo o outro, para assegurar o próprio lugar na existência, como se isso fosse necessário... Vidas sem sentido, na verdade. A gente é meio a Alice, procurando significado no sonho. Só que o sonho é o próprio significado da existência do livro.
Não faz o menor sentido tudo que eu falei, né gente?! Então, isso é 2020!
Fez TODO sentido, em meio à falta de sentido?! Então galerinha, isso é 2020!
Um rolê aleatório.
Mas eu tô de férias no meu apartamento, com salário pago, depois de trabalhar em home office. O meu 2020 foi good vibes. Eu descobri que todo tratamento pra ansiedade que eu vinha fazendo há anos, teve efeito. Estou plenamente grata e com saúde. Porém, fiquei sem ver a família, que boa parte é do grupo de risco.
Riscos, que tivemos que assumir.
A gente é tão bom de julgamento. Criticando quem foi pra praia, trabalhando em home office, enquanto o cara tava indo trabalhar de busão lotado o ano todo... O óbvio é a bosta que está na presidência. O que pega mesmo é descobrir em que momento contribuímos com a situação que estamos vivendo.
O que me motivou na verdade a sentar e escrever foi uma postagem sobre tirar pessoas tóxicas da vida... A gente se especializou em eliminação, mas a vida não é Reality Show. A gente desenvolveu uma síndrome de Economia dos Afetos. Só que o voto do eleitor do bozo vale tanto quanto o seu.