sexta-feira, 30 de julho de 2021

Sobre amor, desvalorização e expectativas irreais

       Como isso está difícil... E olha que me expressar sempre foi meu forte... Eu iniciei e apaguei...  Sinto que me devo um texto de 2021... Mas... Falar de política e de morte parece que, além de não ressoar mais comigo, vai encontrar com a dor de muita gente e não me sinto neste direito neste momento tão delicado. Mas uma coisa fica, de tudo que eu tinha dito, como temos uma dificuldade enorme de lidar com a maior realidade da existência terrena, a morte. Eu decidi então falar de amor, mas de uma forma que, de alguma forma, dialoga com essa questão da morte. A nossa necessidade de fazer oposição entre as coisas, compará-las e diminuir uma, para então poder dar valor à outra. 

    O amor não escolhe. Amor ama. 

    A morte não escolhe, a morte é. 

    A vida sem a morte não faz sentido, porque ela não existe, é a realidade, o fato. Se eu desvalorizo a morte, se eu banalizo a morte, eu banalizo a vida, e vice-versa. A vida é preciosa porque a morte existe.

    Talvez, além de sobre amor, eu queira na verdade falar sobre dar e receber valor. Amar é também sobre isso. 

    Tenho ficado incomodada com discursos prontos de superação que tendem sempre a desmerecer o outro. É como se a gente precisasse sempre competir, e algo tivesse sempre que ter mais valor que outro para ser validado, amado, querido. A gente permitiu que a lógica capitalista nos permeasse em tudo. 

    Então, eu desmereço a vida que eu tinha antes porque a de agora é melhor. Eu desvalorizo a pessoa que eu fui. Eu preciso sempre ser algo melhor com medo de me desvalorizar, como trocar de carro. A mudança é sim algo permanente e imutável, a realidade mais constante da vida. Porém, ser sempre diferente não significa necessariamente ser melhor ou pior. Ter momentos melhores ou piores faz parte justamente do equilíbrio e desequilíbrio do caminhar. Mas a gente tem uma ligação muito forte com o "Happy and", as fotos do antes e depois, a ascensão na vida, a obrigação da felicidade e da perfeição.

    É exatamente por isso, por fazermos isso conosco, essa série de expectativas irrealizáveis sobre uma vida perfeita que na verdade já existe, perfeito é estar vivo, logo, essas expectativas são irrealizáveis porque estão sempre no devir, e a busca constante pelo devir é o combustível da ansiedade e da depressão (essa na verdade, ocorre quando valorizamos o que fomos, a vida que tivemos, o que foi perdido. Novamente, um valor comparativo entre um antes e depois). Ou seja, o valor nunca está no agora, nas coisas como são neste exato momento. 

    Quando eu digo que me amo mas não valorizo quem eu sou hoje, nem o espelho acredita. 

    A mesma lógica vale para outras pessoas. Afinal, aquilo que fazemos a nós mesmas é o que temos a oferecer pra outra pessoa. Só posso amar a pessoa como e pelo que ela é, não pelo que foi ou pelo que espero que seja. Se espero que ela seja sempre quem não é, espero sempre que ela mude, não a valorizo e amo de verdade. 

    Socialmente falando, estamos num momento complexo enquanto mulheres. Esperamos por homens diferentes do que eles de fato são. Isso porque temos lutado por mudanças nas desigualdades que vivemos e isso é perfeitamente legítimo e necessário. Mas pessoas não são produtos. Não tem como colocar na máquina e reprogramar de uma hora para outra. Ou assumimos uma solidão geracional, ou aprendemos a ama-los como são agora. 

    Obviamente, minha fala não é sobre aceitação de violência. Em qualquer situação. 

    Mas quanto ao restante do muito que esperamos em diversos aspectos, ou a gente aprende a amá-los em processo, ou a gente assume a solidão, porque a vida não é como a gente gostaria que fosse, ela é como é.

     E na verdade, isso é sobre eles também, que precisam aprender a se amar em processo. Aprender a se amar inclui autovalor e autocuidado também. Cuidar da saúde, colocar uma camisinha não porque a mina quer, mas por respeito a si mesmo e à própria saúde. Não transar sem estar afim, não se sentir obrigado a sempre estar afim, respeitar os próprios nãos é um passo necessário na aceitação do não alheio. Já pararam pra pensar que os homens não respeitam os próprios limites, por existirem numa sociedade do Superman, e, assim sendo, muitas vezes mal entendem o que é limite? Isso não justifica absolutamente nada, é importante reforçar, nenhuma forma de violência tem justificativa. Mas serve à reflexão, já que sem consciência, não existem mudanças reais. 

    E enfim, isso tudo é sobre amor. Sobre amar a perfeição do imperfeito. Porque esse ideal que projetamos só serve para nos desvalorizarmos diante do que somos aqui e agora, perfeitos, porque somos o melhor do que podemos ser, sempre. 

    E quer saber? As pessoas nos dão o melhor do que tem pra oferecer, sempre. E é sobre isso. Era o que eu tentava dizer. Porque diminuímos o que temos para nos oferecer diante do espelho hoje, porque vivemos frustrados com nossas metas inalcançáveis e inatingíveis e não nos damos o devido valor, metralhamos desvalorização ao nosso redor. O que o outro tem a nos oferecer nunca é suficiente. Porque ninguém tem como tapar o vazio que nos deixamos. Então, estamos cheios de frases prontas como: eu mereço mais. Merece, de quem? Sim, de você mesma; mas sabe, isso é cruel até consigo mesma, porque você está fazendo o melhor que pode, e, acredite, cada um e cada uma está fazendo o melhor que pode. Muitas vezes a pessoa está te oferecendo o melhor de si mesma e você não sabe tomar desse amor, porque suas expectativas são irrealizáveis, até pra você mesma. 

Bruta realidade

      Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...