Inicio esse texto com um frio na barriga e suor nas mãos... Meus olhos lacrimejam, é o transbordar das tantas emoções...As mãos sentem a responsabilidade que não se compara a das pessoas que tem saído de casa para trabalhar, tentando prover um mínimo de normalidade ao atual estado de coisas... As mãos que me possibilitam ter sinal de internet agora funcionando. As mãos que trabalham e sustentam o mundo. Meu peso tem o peso da eternidade... Das palavras que vão e não voltam, repetindo-se no infinito agora do universo infinito... Meu frio na barriga procura atestar a minha segurança em mim mesma, é meu plexo solar buscando a segurança e a certeza em mim mesma para me atrever a dizer algo que será uma afirmação num momento de tantas incertezas... Inicio e já tenho um parágrafo, acho que estou então fazendo a coisa certa no meu caminho de vida.
É preciso dizer alguma coisa. É o que se espera de uma escritora. É o que eu espero de mim mesma desde que sei e tenho a profunda certeza de que isso é o que de melhor sei fazer nesta vida. Mas o que dizer?... Respiro fundo, dizem que quando o fazemos buscamos os segredos da nossa alma... Aqui já começo uma complexidade de coisas... Falar de alma a quem não sei se nela acredita... Deveria discutir Platão, Aristóteles, Santo Agostinho?... Faz tempo que já não o faço, neguei aos homens brancos usarem a minha voz para se colocarem no mundo.
Tomo uma decisão ousada, há muito tomada na verdade, mas que se põe a prova num momento em que A História se desenrola em vida, no exato exato exato agora, sem distanciamentos e de tal forma tão delicada que não é possível, viável, responsável, virtuoso optar pelo silêncio quando se sabe que é possível dizer algo que pode ajudar a salvar vidas, visto que um vírus agora nos mexe por todos os lados e profundamente mais por dentro. Aos que sobreviverem fisicamente, resta conseguir viver saudavelmente, equilibrando a saúde mental. Decido dizer por mim mesma, a partir da minha verdade. Decido ouvir as vozes que me sussurram segredos de sobrevivência, já faz tanto tempo que as ouço, apenas não conto a ninguém que são elas que dizem. Meu Exu é forte, abre os caminhos. Iansã me sussurra sabedoria pelos ventos. Eu não lhes conheço de terreiro, não sou adepta a religiões. Mas lhes respeito e agradeço a existência, são mais nomes que a nossa humanidade insiste em nominar, eles tem mil nomes... No coração trago minhas ancestrais, antepassados de luz me dão as mãos e me emprestam a voz da vez. São guardiãs das florestas, das ervas, caboclas laçadas nas matas pra viver sob as rédias de homens brancos e que não deixaram nada escrito além de inscrito no meu coração, porque sabiam que eu saberia lhes escrever. Meu anjo da guarda, que são muitos, me dizem amém, vai lá e diz o que se tem que dizer.
E o que se tem que dizer?... Eu ainda não sei... Se alguém disser que sabe, talvez esteja mentindo. O que vim compartilhar é que esse nó na garganta também é coletivo. Que a primeira coisa da qual temos que nos despir é do nosso ego, cravado de verdades, e descer na humildade de que não sabemos muito bem ainda o que há de ser. Temos de lidar com a nossa ilusão de controle.
Convoque seu buda. aqui está o meu, sentada numa flor de lótus, vibrando luz violeta. Longe da família, isolada, meditando. Eu não sei de nada. E ao não saber de nada, contemplo tudo. Tudo é novo diante dos meus olhos. Tudo o que sempre esteve aí. A morte, as doenças, a falta de estrutura, a exploração do Capital, o descaso com os idosos, os altos índices de depressão e síndrome do pânico, a fuga incessante de si mesmo e do convívio com a família, a falta de leitos de hospitais, a vida do trabalhador que sustenta o mundo que não pode parar não vale nada... Tudo sempre esteve aí, é oportunidade de enxergar.
Contemple também Gaia que se regenera.
Contemple o quanto você sabe (ou não) cuidar de si mesmx, limpar sua própria casa, fazer sua própria comida.
É hora de silêncio. E a partir disso, a resposta virá. (Mas e o governo? E o neofacismo? E... Alguma novidade? Tem uma sim... Os que hoje ainda insistem em defender, em não querer enxergar, mudarão suas respostas quando contarem seus mortos, se é que estarão vivos para contar.) Talvez seja clichê gratiluz, mas é como quero finalizar: Fique tranquilo, nada está sob controle.
P.S.: minha gratidão às trabalhadoras e trabalhadores que seguem sustentando o mínimo de normalidade para que não sucumbamos ao caos, para além dos absurdos postos de trabalho que não são serviços essenciais ou que são autônomos desesperados e desamparados pelo poder público e que deveriam estar em casa também, existem aqueles sem as quais não teríamos o que fazer. Depois que isso passar eu espero o mínimo de mim, além de limpar minha casa e fazer minha comida - que já faço - plantar o mínimo do que como.
quinta-feira, 26 de março de 2020
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Bruta realidade
Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...
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Como isso está difícil... E olha que me expressar sempre foi meu forte... Eu iniciei e apaguei... Sinto que me devo um texto de 202...
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Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...
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Em 26 de março eu disse: Convoque seu buda. Outro dia, já faz um tempo também... Eu disse que escreveria mais... Tô tão angustiad...
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