quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Juízo Final

           Vira e mexe eu tenho conversas lindas com meu filho. Nessas horas eu me lembro do livro sobre Sofia, em que ela fala sobre nossa capacidade de olhar o mundo como criança. Esses dias ele completou 8 anos. É a idade do Chaves! rs... Mesmo rir por nada completamente sem sentido... E é lindo. Quando me perguntam se sinto saudades do bebê, eu sei que sinto do cheiro. Mas eu sempre o amei exatamente como ele é, na fase da vida em que está, em que estamos. As conversas nas refeições ou antes de dormir. As conversas depois do silêncio onde o coloco para que pense sobre o que aconteceu, quando olhamos um nos olhos do outro. 

          A última novidade são as conversas a respeito da composição familiar. Entre lições da escola (que nem sempre fazemos no atual contexto pandêmico), desenhos (que ele mesmo literalmente "controla", num senta e levanta do sofá e seleciona, pausa, na tv), a oração aos antepassados que fazemos, e entre sua própria vivência cotidiana, ele aprende as nomenclaturas, às vezes me lança perguntas como se eu conheci seu tetravô... Temos a sorte de ter uma boa relação depois de alguns anos de separação, eu e o pai, e disso, ele tirou a conclusão de que as pessoas têm filhos com amigos... Eu achei uma ideia linda. Se eu tivesse que dar um conselho a alguém, eu diria exatamente isso, tenha um filho com um amigo. A amizade é a relação não sanguínea mais sagrada que existe, o amor mais puro e verdadeiro. Ela dispensa contratos e status. A amizade simplesmente é. 

          Afinal, expliquei-lhe que, apesar de hoje amigos, um dia fomos namorados. Mas ele decidiu (com toda sua maturidade de 8 anos...) que não quer ter filho com namorada... E me perguntou se poderia botar um ovo (sinceramente, não lembro quando tinha sido a última vez em que eu tinha rido com profunda verdade, não era um rir dele, era um rir de alma da pureza das concepções e perguntas genuínas, e isso é tão mágico. Acredito que esse texto também seja uma necessidade de se eternizar esse momento). Enfim, tive que lhe dizer a mais pura verdade desta vida: apenas as mulheres são capazes de gerar uma nova vida nessa nossa existência humana. Sem mulher, sem filhos. Falamos sobre adoção e agora ele acha que pode adotar dois ou mais filhos... E cuidar sozinho. Tenho tentado argumentar que criar uma criança sozinho é um desafio e tanto... E que também não é muito provável que lhe concedam a guarda de crianças para que cuide sozinho. 

          Sabem... Eu nunca, nem de longe, me imaginei tendo essas conversas. Não sei se imaginam a profundidade disso... Me faz pensar no quanto a vida gera vida... Ele me fez acordar para o fato de que um dia eu possa vir a ter netos... Essa é realmente uma parte muito bonita da maternidade. Mas eu sei que sou uma privilegiada. Infelizmente. Pelo fato de o pai dele cumprir com sua responsabilidade de pai e de ter sempre partilhado dessa responsabilidade comigo. E, na verdade, eu nem queria ser mãe. Mas o pai sempre quis ser pai. E ele é um lindo acidente hoje, mas foi um acidente terrivelmente assustador. Eu chorei muito e demorei a aceitar. Porque a sociedade é cruel com as mulheres e a maternidade é um misto de beleza e solidão. Ser mulher é um misto de beleza e solidão. A solidão das deusas. 

          Essas conversas com meu filho me fazem nutrir a esperança de que a geração vindoura seja menos estúpida com suas mulheres e com suas crianças. Seja feita de um masculino cuidador que assume a responsabilidade por sua própria vida. Que assume responsabilidades. 

          Porque, eu não consigo ver um único culpado no caso de violência sexual que tomou as mídias esses dias. A vejo sendo violentada em seu julgamento, por três homens. E, eu me pergunto, como é a vida das mulheres que vivem com esses homens? 

         Pra que eu pudesse dar à luz um ser humano masculino que apresenta se construir tão diferente desse masculino brutal com o qual convivemos, eu precisei da vida de muitas mulheres que sofreram inúmeros tipos de violência nas vidas que viveram. Muitas talvez nem tivessem consciência sobre serem violentadas, mas com certeza sabiam que sentimento horrível é esse. Deitar com o marido na cama e se sentir obrigada a servi-lo. 

         Poderíamos falar sobre poder e dinheiro. Mas a triste realidade é que a cultura do estupro suplanta questões de classe e de raça (sem menosprezar isso), mas ela perpassa tudo. Perpassa esse ódio às deusas da vida e da morte. As únicas capazes de gerar vida. As únicas capazes extinguir uma linhagem por decidirem não procriar. O ódio diante da impotência. O ódio da besta primitiva. O ódio que se vinga diante de todo feminino. O impotente que precisa se utilizar do corpo feminino pra se sentir vivo. Talvez seja o apocalipse zumbi, desses homens sem alma. Que seja. O juízo final dessa gente. 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Vida leve

          É a primeira vez que faço isso. Começo um texto pelo seu título. Vida leve... 

          Possivelmente eu escreveria sobre esse tipo de agonia no meu blog de poesias... Já que o que me inspira neste momento é dissertar sobre o amor... E... Talvez seja algo inútil e brega. Um paradoxo neurótico... O amor é. Verbo intransitivo como já diria algum poeta masculino aclamado na Academia. 

          Quanta ousadia... Porque, nem quero dizer dos vários tratados que se vem dizendo sobre a ideia de amor romântico...

          Na verdade, pela primeira vez venho falar em primeira pessoa e assumir seu significado pra mim. Num tempo de verdades múltiplas, essa é mais uma composição sensorial nesse mosaico pós moderno mal divulgada em alguma rede social e talvez lida por uma dúzia de pessoas, com sorte. Talvez eu suporte esse risco por justamente significar uma grande probabilidade de palavras ao vento incompreendidas...

          Eu pretendia voltar a escrever por aqui quando houvesse alguma ideia genial, algo surpreendente a ser dito, sobre um assunto de grande importância... Afinal, há uma pandemia, atentados, eleições, um incógnito ano no calendário de nossas existências...

          E venho eu aqui querer dizer sobre algo absolutamente ultrapassado, dissecado, rotulado, adjetivado, assunto no mínimo múltiplo e poli em tempos pós-modernosos... Ou, quiça, algo transcendentemente novaerístico... Quem sabe, precisamos falar do amor de cristo. 

          Na bem da verdade, eu sei muito bom o que quero dizer, mas não sei o que dizer. Me vem à cabeça a frase de uma colega em uma aula da pós-graduação (tempos em que a escritora aqui agora assumida debatia ideias no silêncio da mente com o crítico literário que nos dava aula... - eis a minha vingança: os críticos não entendem nada da alma artística, nada!). Enfim... Ela disse algo como: mas a verdade existe. Existe algo que a gente sabe que é verdade. 

          Existe. Mas existe também a verdade de cada ser, num caleidoscópio de múltiplas sensações. Tal como um caleidoscópio, uma combinação de cores, espelhos e efeitos visuais; todavia, as cores primárias continuam sendo três... 

          O amor é. A gente que conjuga. Foi a cultura ocidental, que se fez a partir de línguas que necessitam conjugar verbos em tempos e modos, que o emoldurou num quadro... Como se a vida fosse modular e houvesse como dividi-la em passado, presente e futuro... Uma falsificação do eterno agora numa projeção inatingível ou num estado putrefato de tudo que não existe mais... 

          Eu me achei fútil por querer falar sobre isso. Como escrever um texto pra uma revista feminina da década de 50... Eu, uma mulher tão empoderada não poderia me dar ao luxo de me debruçar sobre tema tão vulgar...

          Percebem que eu falo, falo, falo e não parece que esteja bem definido o que eu queira dizer? O amor é isso. Esse incapturável que escapa às definições... Vocês (ou eles, ou sei lá quem...) que querem defini-lo em dias, meses, anos... Datas, pessoas, relações... Família, igreja, religiões... Até em trabalho e profissão quiseram metê-lo. 

          Amor é estado de espírito. 

          É deveras mesquinho metê-lo na mensagem não respondida. Na palavra não dita. No papel não assinado. Na cerimônia não celebrada. No abraço não dado. No status não modificado. Na self não publicada. Na falta de anel. No almoço de domingo que não veio. Na ausência de presente. É deveras mesquinho metê-lo no não que a vida te deu. 

         Esse não também pode ser que seja amor. Todo não traz consigo um sim. O pai que não te ligou, que não esteve presente, porque ele é melhor ausente. O filho que não respondeu porque ia te preocupar mais saber onde ele estava. A pessoa que não te escolheu por saber que você merecia algo diferente. Vai ver ela não respondeu agora, porque mais tarde poderia te dar melhor atenção. 

        Somos uma geração de mendigos mesquinhos e mimados. Rastejando por não fazerem exatamente as coisas como a gente quer. Diminuindo o amor pra que nos caiba, chamando o "seja feita a nossa vontade" de amor. 

          Vida leve... Leve essa arrogância da nossa geração. 

Bruta realidade

      Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...