Você não entendeu direito. É o mais provável e mais possível. Quando estudamos linguagem, muitas das filosofias e estudos voltam-se ao fato de que o significado está no outro. A linguagem é simbólica, e sua interpretação depende do repertório de vivências e significados que a outra pessoa com quem conversamos traz consigo.
Não tenho o menor controle sobre o que você que está me lendo vai compreender do que está dito aqui. Para a filosofia budista, isso é entender além da ilusão do controle, não tenho controle sobre o outro, sobre você ou sobre qualquer outra pessoa, seus sentimentos, intensões e ações. Se temos algum tipo de relação pessoal e você é uma pessoa egocêntrica, é possível que compreenda que escrevi todo um texto para lhe enviar uma das hoje conhecidas como "indiretas das redes sociais". Se eu sou paranoica e acredito que alguém vem até aqui para saber da minha vida, talvez seja possível que eu acredite estar enviando uma indireta. A única verdade é que, simplesmente, não sabemos. E o que entenderemos desta situação, deste textão, vai muito além da relação direta entre mim e você. E assim é em toda situação de comunicação.
Incomunicáveis. Essa é a sensação que temos em meio a era digital. É muita informação. É muito barulho. De igual modo e proporção, é muito ruído na comunicação. É muito eu achar que estou dizendo uma coisa e você entender outra e vice-versa. Ao mesmo tempo, o verbo no imperativo é o que predomina: faça, não faça! Desapegue-se! Sinta! Seja! Ame! Não crie expectativas! O que esperar onde não se pode esperar nada... Na verdade, dizemos isso o tempo todo (ou ao menos na minha bolha vejo sempre...), tudo é impermanente. Inclusive esse texto e seu significado... Mas é uma jornada viver num mundo onde se espera que você esteja no controle absoluto, tenha informação sobre tudo, seja bem formado e informado, onde se acredita ainda poder ir além da morte, clonar pessoas, brincar de deuses, criar novas espécies, controlar as ações, os passos, os algoritimos, os ratos, e em algum momento entender o quanto isso é insano e parar a roda que gira, gira, gira, como a nossa mente a volta com tantos pensamentos e sentimentos... tão solitários parecemos... Em meio a tanta gente e tantas palavras... Esperamos por aquela like ou compartilhamento que enfim nos diga que há um ser ao menos que divide conosco angustias e prazeres...
Mas fiquemos tranquilos. Não estamos mesmo a sós. É a Torre de Babel (e é mesmo!). É muita mudança em pouco tempo. São muitos valores sendo revistos. Ainda estamos avaliando o impacto de tanta coisa nova. Do pessimismo ao otimismo. Da euforia à exaustão (talvez a bipolaridade seja também uma pandemia...). Quiça, e não por acaso bombam diversas técnicas terapeuticas, principalmente ligadas ao mindfulness (atenção plena no momento presente), ou adesão a práticas como meditação e yoga. Apenas inspire e expire. Apenas esteja aqui e agora. Apenas silencie. Não à toa, e pra quem já teve e sabe como é, crises de ansiedade e pânico tem a ver com achar que vai parar de respirar...
Estamos convivendo ao mesmo tempo com pessoas arraigadas em valores tradicionais, com quem quer mudanças pra ontem... Quem já entendeu que precisa de um equilíbrio no meio disso aí e tá tateando como... Alguns donos da verdade... Outros imersos no silêncio, talvez por prudência, saúde mental ou receio de ser atropelados pelos donos da verdade... No meio disso tudo, encontrar pontos de contato para construir pontes e dialogar é um desafio. Um desafio não estar limitados às chamadas bolhas, apenas interagindo com quem achamos que pensa exatamente como nós. Mas um desafio mais profundo, que é ir além da superficialidade do diálogo. Porque mesmo na nossa bolha, quanto mais adentramos os universos, mais descobrimos pontos de contato e, tanto quanto, de divergências. Estar disposto a construir pontes é o que permite que duas verdades se encontrem no meio do caminho e quiça, talvez não se convençam uma da outra, pois, já dizia Saramago, querer convencer alguém é uma intenção de colonizar o outro... Mas possam bailar em silêncio admirando o mesmo pôr-do-sol (do alto da ponte, é sempre mais bonito...).
O maior desafio nisso é que pontes não se constroem sozinhas. Pela lei da gravidade, pontes só podem ser construídas a partir dos dois lados, tijolinho por tijolinho, até se encontrarem no meio do caminho...
É um desafio você ter chegado até aqui. Até o fim desse texto. É uma disposição. Além da troca fugaz de mensagens rápidas e de memes. Ainda assim, sem buscar a verdade acadêmica de uma tese. É um desafio continuar por linhas de quem te diz que você não entendeu nada... A disposição de continuar a dizer sem construir muros, sem interromper o diálogo... O esforço de tentar continuar a construção da ponte, ainda que talvez o seu começo tenha sido tão torto que não seja possível de se encaixar... O tal do controle... Nem todos somos engenheiros e arquitetos para calcular com exatidão se essa ponte vai dar certo... E se todos quisermos esperar pelo diploma que confere o título possível para só então começarmos as construções... É uma das possibilidades do pq talvez estejamos ainda gritando de uma margem e outra sem se entender muito bem... Até desistir...
Outro desafio possível é pegar seu barquinho e ir até a outra margem, sentar em silêncio ao lado do outro ser. Olhar a paisagem do lado de lá. Em silêncio. Convidá-lo à sua margem. Fazer coisas humanas que independam de palavras. Mas que ainda assim exigem o grande desafio da boa vontade. Do que não está pronto. Que não tem receita no verso nem no youtube. Que não fica pronto em três minutos. Que não tem controle remoto.
segunda-feira, 26 de agosto de 2019
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Bruta realidade
Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...
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Como isso está difícil... E olha que me expressar sempre foi meu forte... Eu iniciei e apaguei... Sinto que me devo um texto de 202...
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Em 26 de março eu disse: Convoque seu buda. Outro dia, já faz um tempo também... Eu disse que escreveria mais... Tô tão angustiad...
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