quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Quem cuida de quem cuida?

            Faz algum tempo que eu queria escrever sobre isso... Mas não encontro o tom acertado de dizer... Hoje despretenciei da perfeição, da verdade absoluta, do acerto completo. Vou apenas dizer.
            Comecei pensando na solidão das mulheres fortes. Indaguei uma a uma das que conhecia (e eu conheço tantas que me faz acreditar que toda mulher é uma mulher forte, por força da vida), perguntando-lhes se choravam quando a vida doía. Se partilhavam suas dores. Se reclamavam quando não encontravam a força necessária, a coragem que a vida nos quer. Da maioria ouvi que não. Algumas das quais já me ampararam, algumas às quais já amparei. Mas a força do chorar diante da outra, é raridade. Não acredito de forma alguma que chorar seja um ato de fraqueza. Acredito num nobre ato de grandeza, lavar a alma por meio das lágrimas. O poder mais curativo que existe em nós, pq sai de nós e de nada necessita, apenas de si mesm. Acredito também que a maioria de nós possui essa grandeza, mas não em frente às demais, precisa estar de se afogar pra dentro pra que ocorra de se por pra fora em frente a outrem. E por quê?
            Não tenho nenhuma pretensão de dar respostas. Até porque cada vez mais tenho tido mais perguntas... Diante do inalienável fato de quanto as mulheres são cobradas na nossa sociedade pós-moderna, do quanto a maioria pratica tripla jornada, do quanto a sua conquista ao mercado de trabalho a sobrecarregou sem que tivesse havido divisão das atividades do lar. Do quanto há uma desconexão com nossos corpos, de maneira interna, alijamento e alienação, do quanto há um exercício de controle de nossos corpos aos quais buscamos escapar. Do quanto os índices de violências várias e feminicídios nos assolam. Do quanto fomos ensinadas a competir, a comparar. Do quanto há uma inegável desigualdade social de gênero, e uma brutal aversão à potência do feminino que foi cultuada durante séculos, inclusive culminando no esmagamento da potência feminina criadora, Mãe-Terra, amada Gaia, violentada abruptamente em nome da ganância do macho poder. Então, se não está, que fique bem claro, esse texto é para quem já tem aceitação desses fatos.
            Dito tudo isso, o dialogo parte para se pensar com os homens que já compreendem o quanto esse esmagamento do feminino sufoca a todes nós, e sobre os homens em geral. Perguntei sobre chorar a alguns, na frente do amigo, se dividem suas dores, Um me disse que diante do efeito do álcool eles se soltam. Quem cuida de quem cuida? A pergunta passou a ser: quem cuida? Quem cuida de quem? Havia num tempo remoto a ideia de que o homem cuidava de prover a casa. Cuidava dos seus. Era uma ideia de homens brancos para homens brancos, é importante lembrar.
            Tá confuso mas é meio isso, tudo junto, porque nada é isolado... por que associar cuidado a choro? Já cuidou de alguém? Cuida de si mesm? Já sentiu o peso de não saber o que fazer? A impotência da responsabilidade do cuidado, de ter respostas, de ter recursos, e não ter respostas, não ter recursos... E o que se faz até encontrar as respostas e os recursos? Engole o choro, ou põe pra fora... Mas ele tá ali, nascido da sensação de impotência, de sobrecarga. Parido ou abortado.
            Não sabendo dizer se os homens cuidam de alguém, se sentem essa responsabilidade, fiquei pensando se eles cuidam de si mesmos... Se sentem essa responsabilidade. Desde as coisas básicas do cotidiano, até o autocuidado. Ou se estão sempre responsabilizando mulheres por todos esses cuidados, dos cotidianos aos emocionais, da namorada, crush, amiga, psicóloga (sim!! é uma profissão majoritariamente feminina), à mãe, professora acolhedora, a vó, a tia, a irmã, a filha... Ainda assim, choram? Acredito que esse peso social sobre a masculinidade pese... Não que eles morram por isso como nós morremos. Mas, como diz a música, "também morre quem atira".  Se tenho falado sobre construção e reconstrução constantemente aqui, é preciso acreditar nisso, nesse algo de possibilidade da potência de vida. Então, talvez, seja justamente por essa dificuldade em se autocuidar que se tornem os homens muitas vezes perdidos e alijados de sua própria existência. Porque até procurar uma psicóloga pra eles é muito mais difícil.
            Quem cuida de quem cuida? Alguém cuida de alguém? Temos nos cuidado enquanto sociedade? Temos trabalhado no nosso autocuidado? Temos cuidado? Tenho repetido como refrão de música, vivemos tempos onde os paradigmas forma quebrados. E há a indefinição dos papeis sociais. Então, difícil dizer hoje quem cuida de quem e de quem seria a responsabilidade do cuidar. E, sim, o autocuidado é FUNDAMENTAL. É fundamental para o instinto de sobrevivência saber cuidar de si mesm, desde as questões externas de sobrevivência cotidiana, até as questões emocionais. Mas vamos além? Que esse discurso muitas vezes tá vindo como mais uma imposição de disco de vitrola quebrado... (favor, uma analogia de gente jovem que agora não me ocorre nenhuma... rs). O autocuidado é fundamental, mas mais do que uma ordem, um imperativo, precisamos compartilhar como fazer isso. Que apenas: cuide-se! Pra quem não foi ensinado como faz isso, e na geração da comida de 3 minutos comprada no mercado, isso não tá na prateleira muito menos fica pronto em três minutos...Tem dado mais desespero do que colaborado.
            Quem cuida de quem cuida? Quem cuida de quem? Cuidemos todes de todes. Simplifica bastante. Compartilhemos mais como quem também é frágil e chora na frente do outro, mas que hoje eu descobri isso daqui que é bom pra se cuidar, e você me diz o que aprendeu, e a gente chora e ri juntes. Não cuidemos com o peso da responsabilidade imperativa, cuidemos com a leveza da beleza da troca. O outro, a outra, não é minha responsabilidade, mas pode ser uma doce companhia de choros e risadas. Menos verbos no imperativo, mais perguntas sinceras.

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Bruta realidade

      Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...