domingo, 29 de agosto de 2021

Sommelier de anzol

         Vou falar de não sei bem o que... Ou melhor, eu sei, apenas não tenho certeza sobre saber expressar isso... É uma verbalização que nasce de uma angústia, e essa angústia quer se fazer ideia em carne, osso e voz, ou melhor, em palavras, linhas e vozes...

        Vivemos tempos confusos... Talvez eu precisasse estudar anos para articular o que quero aqui, mas vou usar do atrevimento geracional que me permite dizer sobre algo sem pesquisar afundo por anos a fio... Embora seja fato que por paixão e por ofício, estudar faz parte da minha existência desde sempre, embora no momento não o faça institucionalmente ou oficialmente...  

        Existe, é fato, uma Guerra Fria cultural, que persiste fragmentada nos discursos... É como se não pudéssemos pensar em outras possibilidades de mundo, embora falar isso me cause um profundo arrepio de que se pareça uma defesa de uma "terceira via" falaciosa e com interesses duvidosos que tenta se construir no Brasil contemporâneo... E talvez essa seja a questão... Tem sido um risco arriscar ideias que não sejam utilizadas utilitariamente a serviço de algo ou de alguém... Ideias que se permitam ser exercício de pensamento, embora, não seja inocente de acreditar em ideias neutras. Minhas ideias factualmente são "à esquerda" - obviamente por ser mulher latina, periférica, professora e descendente de indígenas - de todo um pensamento tradicional em termos de uma visão judaico-cristã ocidental capitalista, neoliberal, eurocentrada e brancofálica. Todavia, isso não sei se pode ser conjugado à uma esquerda tradicional que por vezes cai em brancofalocentrismo... Enfim... Não me quero classificar e não sei se esse é um bom começo.

        Existe uma necessidade das almas de ultrapassar tudo isso. Como pesquisadora de Nelson Rodrigues que fui por uma década, a frase que mais me marcou foi uma em que o autor brasileiro dizia que sua única crítica a Marx fora que este havia lhe tirado a vida eterna. Confesso que Nelson foi responsável por uma crise no marxismo ortodoxo dos meus 20 anos... Embora um machista do seu tempo, o que muito me ojeriza. E me deixa em crise de estar sempre a dialogar com esses homens brancos donos das ideias e que "precisam" figurar nos debates, irritantemente. 

        Enfim... É sobre isso. Temos alma. A cultura brancofálica nos tirou a alma eterna. E hoje, vazis e vivendo outra vez (ou continuamente) o mal do século dos adoecimentos mentais e emocionais, buscamos tapar esse vazio existencial que nos havia levado a alma embora. Afinal, o deus do Capital é o dinheiro. E absolutamente nada tenho contra o dinheiro, apenas tenho contra colocá-lo no lugar de deus. 

        Entramos neste ponto numa outra questão. A arbitrariedade brancofálica em associar deus necessariamente ao deus das religiões judaico-cristãs. E novamente, e principalmente em relação ao Cristo, nada tenho contra, inclusive, suas palavras e os livros que lhe referem são de uma beleza ímpar. A questão é o que a cultura brancofálica fez dele e do deus jadaico cristão em nome de poder e em benefício próprio, subjugando mulheres, povos e modos de vida.  

        Logo, negar à arbitrariedade dos representantes desse deus judaico-cristão levou-nos a negar a própria divindade e a existência de nossa própria alma. Negação essa que, como descendentes de povos originários e africanos, nos nega nossa própria existência enquanto herdeiros culturais desses povos, que não separam seus modos de vida de sua divindade. Tornamo-nos zumbis desalmados, buscando preencher-nos de tudo que é externo para saciar nossa falta de alma. 

        O Capital que tudo assimila, mastiga e regurgita reformatado, fez o favor de tomar conta disso. Num primeiro momento, preenchendo-nos de produtos materiais e simbólicos que poderiam quiçá preencher esse vazio: religiões não-católicas (plenas de salvação e de sucesso financeiro não condenado como usura); entorpecentes legalizados e não legalizados (morfinas para tapar a dor insuportável de não se ter alma); comida como produto (afinal, é preciso preencher, pôr pra dentro, tapar o buraco); lazer (ser feliz é o que importa, nem que seja às sextas feiras, férias e feriados); relacionamentos e sexualidade (o vazio afetivo e sexual, moral ou imoral); e, a última moda do momento, terapias e terapias. 

        Sou profundamente adepta das terapias. É preciso pontuar. Mas a mercantilização da cura, é preciso admitir, é um negócio rentável. Haja visto que a cura enquanto mercadoria não possa ser uma cura definitiva, afinal, o que se faria sem clientes? Passamos à impermanência da satisfação pessoal. A ideia de eterna imperfeição e de que haja sempre o que se melhorar, passamos então, à mercadoria em si: a mudança. O produto da moda à venda é a mudança. Afinal, haverá sempre o que se comprar se eu estiver sempre disposta à mudar. E, caso a vida esteja um caos, eu preciso mudar, é minha inteira responsabilidade. 

        Talvez o que eu queira dizer aqui seja sobre a adaptação do Capital à urgência de uma visão diferente da judaico-cristã. A ideia de começo, meio e fim (dos tempos), foi adaptada a contribuições orientais, como a ideia de impermanência e de que a mudança é a única realidade da existência. A concepção de "fique calmo, nada está sob controle" a não ser o controle dos algoritmos e dos sistemas bélicos. O foco em mudar a si mesmo antes de querer mudar o mundo surge como algo onde se espera que não se almeje mais mudar o mundo, apenas a si mesmo. O conceito de aceitação da vida vem embalado na aceitação do sistema vigente.

        Estamos confusas e confusos em meio a tudo isso. Porque, como eu disse, o sistema mastiga e regurgita tudo como se fosse uma linda borboleta androide. Ele se apropria das nossas angustias e apresenta soluções de acordo com os nossos desejos para que não desejemos mais nada... No melhor estilo: cala a boca e fica quieto, contente-se com o que você tem (mais uma inversão aqui do valor da gratidão...). Ou quem sabe, não pense em nada... (uma inversão do valor da meditação...). E assim por diante. 

        Conclusões?... 

1. Temos alma, senhores desalmados. E nada conseguirá tapar este vazio a não ser o re-conhecimento dessa alma que vos habita;

2. Sim, podemos ir além da Guerra Fria, quando formos além da ideia de poder. A questão do Capital não reside no dinheiro, reside no poder. A título de Br, o risco da "terceira via" está justamente nessa questão...

3. "Mano, crer que o ódio é a solução é ser sommelier de anzol", já disse Emicida;

4. Espiritualidade é um discurso em jogo, a última moda. Mas não é balela. Aos adeptos do brancofálico discurso de "ópio do povo", recomendo repensar à luz de culturas não-europeias esse conceito.

5. Espiritualidade sem crítica social é alienação das brabas. É ego. É tipo: se tá tudo bem pra mim, então, tá tudo bem. Não é cristão e nem é búdico (citando matrizes que trabalham com a ideia de indivíduo).

        Não foi fácil nem sei se foi compreensível, mas foi catártico e a angustia amenizou.


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Bruta realidade

      Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...