Reparo que sempre começo sem saber muito bem o que vou dizer e fico a enrolar o primeiro parágrafo divagando sobre os temas possíveis... Vou seguir a receita, é o que pra mim funciona. Abro a geladeira e vejo os ingredientes aleatoriamente esperando serem cozidos e de repente tenho um prato bonito e saboroso à minha frente. Essa é minha vida. Eu já tentei seguir cardápios e receitas e ter tudo bem organizado à frente, mas no fundo o que funciona mesmo é minha bagunça organizada, essa espécie de planejamento com improviso, e, voilà, lá se foi um parágrafo inteiro em que parece novamente que nada eu tenha dito nem saiba ainda sobre o que vou dizer... Eu chamaria isso de contemporaneidade, pós-modernidade, modernidade líquida... Essa junção de tudo e nada que dá em alguma coisa.
É muito barulho, né?! Nas redes sociais, na vida, na avenida. Até nos rolês good vibes, cachoeiras, praias e afins. Tá superlotado. A vida, a mente da gente. Nesse barulho todo fica difícil de recolher as palavras que são só nossas, de se recolher. E será que isso é possível? Palavras só nossas. "Sei que às vezes uso palavras repetidas, mas quais são as palavras que nunca são ditas". Vivemos talvez a época dos diferentões que nunca foram tão iguais. A gente quer ser muito original, mas a gente compartilha a vida e as vivências e em algum momento estamos ali, denovo, repetindo padrões e modelos. Isso seria um problema?... Acho que a vida é essa dialética (eu ia dizer paradoxo, mas posso usar dialética, porque uma coisa de forma alguma anula a outra, não sendo senão complementares), a vida é essa dialética entre o que é nosso, o que é do outro, o que é só meu, o que é de todes. É velha história, sempre tão atual, do grão de areia, da gota do oceano. Ou, para melhor ilustrar a quem a vaidade caiba, como pra mim faz todo sentido, do fio de cabelo que é apenas um fio de cabelo, mas deixe cair seus fios de cabelo para ver a falta que fez e como são importantes.
Mas a gente vive essa urgência do diferentão, como se um único fio pintado de laranja pudesse fazer diferença num cabelo inteiro. Talvez minha inquietação de escrita sendo protelada (porque faz tempo que estou para me sentar aqui e digitar algumas linhas...) esteja contaminada por essa necessidade de que um texto num mar de informações desse mundão da internet de meu deus seja diferentão o suficiente... Para o quê mesmo?... Ahhh... Likes e compartilhamentos, necessidade de aprovação de outrens... Ahhhh essa poha de necessidade de aprovação, insanidade nossa de cada dia... Mas que também não é tão diferentona, porque a história da humanidade se faz dessa necessidade de aprovação externa, antes uma validação familiar, comunitária, de se estar dentro de determinados padrões, hoje uma necessidade de validação do não se estar subjugado a padrão nenhum, como se isso fosse possível. "E o que eu mais queria era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém".
E no começo disso tudo eu só queria falar sobre essa necessidade que os discursos de internet tem ultimamente de regular a vida, regular empoderamentos, diminuindo o outro: ele não te merece, é muito raso pra quem precisa mergulhar profundo, e etc, etc, etc. Que no fundo só camufla o quanto nos sentimos impotentes diante de situações onde não temos o mínimo controle (e geralmente não temos o mínimo controle de poha nenhuma, mas enfim...), que implicam o querer, o desejo, a vontade do outro. E quando colocamos isso no campo dos afetos, é o lugar mais doloroso de se estar pra nossa criança interior birrrenta, tenha ela sido ou não amada pelos pais, porque é o lugar onde todas as regras coercitivas já foram quebradas, nada mais obriga o outro a estar com você na contemporaneidade. No seu trabalho, condomínio, hostel, partido político, igreja, família, qualquer instituição tem laços determinados por regras claras. As regras do afeto e da troca amorosa do século XXI foram quebradas e a gente não sabe mais o que fazer com isso, então, optamos por diminuir o outro que não sabe escolher bem, que não é bom e grande o suficiente pra assumir a minha intensidade. Essa necessidade de aprovação alheia que não entende por que eu coloquei uma melancia na cabeça e mesmo assim ele não olhou pra mim, deve ser porque ele está cego e não enxerga direito, e não simplesmente pelo fato de que ele não quis, porque no campo dos afetos agora a gente pode não querer, sem mais explicações.
Esse não saber o que dizer, talvez venha desse pacote do não saber o que fazer. E isso é um negócio doido num mundo que espera que a gente saiba, seja decidida, tenha projeto de vida, faça escolhas maduras! Você sabe, você pode, yes, we can! Só que não. A gente é processo. Tem horas que sabemos, tem horas que não. Tem horas que podemos, tem horas que não. Tem horas que a gente é diferentão, descoladão. Tem horas que a gente é careta e "ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.". Vou citar minha terapeuta: e tá tudo bem.
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