sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Amores líquidos

            Se a modernidade é líquida, por que não fluímos como a água?
            Tenho me questionado se há uma tendência apocalíptica quanto à nossa vida em sociedade, suas transformações, majoritariamente interpretadas como negativas.
            O que tem ruído são as relações ou a falsa ideia de controle?... Do lado oposto da neurose do controle instituído muito antes de termos câmeras por toda parte, anteriormente regulados por instituições e imposições morais, temos os laços que se desfazem com um click (afinal de contas, a mudança de status de relacionamento nas redes sociais têm valido até como prova nos autos judiciais, quando não, comumente informam a família antes mesmo da conversa: mãe, tô namorando).
            Tal como a iminência da morte, não há mais cerimoniais à disposição obrigatória para o fim do status. Menos ainda para seu início. A questão que coloco, seria sobre a negatividade dessas transformações. Elas seriam problemáticas em si, ou denunciariam a falsa ilusão do controle, lógica na qual nos inserimos desde o homem vitruviano. Como calcular a vida sem parâmetros explícitos?
           Estamos diante do desconhecido, um mundo novo que se abre a partir de novas relações e percepções, estamos rumo ao além-mar, e ao invés do frio na barriga diante do descobrimento de novas possibilidades, reclamamos que não encontramos o caminho para as Índias. Estranhamos e barbarizamos o desconhecido, escrevemos cartas sobre sua selvageria. Pouco tentamos trocar. Em breve catequizaremos a novidade.
          Diante do que não está no nosso controle, temos duas possibilidades: a contemplação e o medo. Do medo do desconhecido surgem as guerras. Da contemplação, as questões genuínas, o saber novo, novamente construído. A admiração. O êxtase.
           Acaso, ao invés de seguir nômades o caminho das águas, insistimos em colocar cerca nas terras, domesticar os animais, e terminar por querer mudar o curso do rio, sem nos perguntarmos o quanto isso é violento...
           Diante das águas sobre as quais não temos controle, aprendamos com os japoneses, que tombam plantas dos edifícios como patrimônio, ao invés do próprio prédio. Realidade material mutável diante da força da tsunami.
          Nem sempre as águas estão sob controle. Deixemos fluir... O controle sempre foi uma ilusão.
          No fundo, do que sentimos saudade, é de poder colonizar o outro. Dá-lhe um contrato a assinar. Manter-se união por hipócritas convenções sociais. Muita sorte temos em poder desfazer os laços diante dos nós no peito, sem nos sentirmos algemados ao outro como lugar.
          Camões já dizia, "é estar-se preso por vontade". Se não desejas estar, certo é que não seja amor. Se preferes as relações como contratos selados inóspitos, preferes a algema por imposição, se liberdades não queres, veja bem que não é à toa uma síndrome não. Abraça-te a teu tarja preta, e dopadamente, vá viver feliz!

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Bruta realidade

      Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...