quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Les temps sont durs pour les rêveurs

              "São tempos difíceis para os sonhadores"
               O fabuloso destino de Amélie Poulin é meu filme preferido. A história da menina solitária e hipocondríaca, que cresce isolada do mundo, cujas únicas relações sociais resumem-se às de trabalho e um vizinho.
              O filme é de 2002, ainda não havia o boom de redes sociais de hoje. Mas é quase como uma premunição... Ela imagina solitária quem seria o dono do álbum de fotos e por que ele coleciona aquelas fotos estranhas. É como construir um quebra-cabeças de ilusões e expectativas sobre o desconhecido. É como stalkear alguém ou como conhecer virtualmente alguém de quem se vai colhendo informações aos pedaços.
             Somos seres aos pedações colados em papéis remontados, buscando significados.
             Somos uma sociedade hipocondríaca, temendo o contato com a vida e o mal que o mundo lá fora possa nos fazer.
            Somos epifanias momentâneas quando alguém se propõe a nos narrar a vida nos ouvidos cujos olhos não enxergam, mas que logo adiante nos devolve solitários à porta do metrô (seguimos viagem extasiados, cegos e solitários até um possível próximo encontro).
             Tens ossos de vidro? Ou te escondes da vida num apartamento com um gato, como se os tivesse?...
            Talvez você seja o vendedor de legumes, rabugento, sempre no piloto automático até que alguém remexe em tudo e nada faz mais sentido quando você descobre que não é o relógio que segue...
            Talvez seja o trabalhador humilhado que sorri aos clientes amigos, tirando-lhes os sorrisos que lhes permite dar, ensinando e aprendendo com eles.
            Talvez seja o homem sentado sempre no mesmo lugar, ciumento, possessivo, trocando de amante, mas seguindo na mesma insegurança, sem nada entender do amor, embora almeje desesperadamente ser amado...
             Quem sabe a mulher sem autoestima, que precisa dar uma bem dada, mas que, ao se apegar a essa foda, ganha de brinde uma relação abusiva com esse homem inseguro, carente e possessivo.
            No fundo esperamos a coragem de Amélie, de no último minuto sair do mundo das ilusões e tentar de verdade. Deixar de lado os diversos estratagemas mirabolantes e simplesmente, abrir a porta quando o amor bate.
            E apenas sentir o vento no rosto sorrindo no final...
            Como ela sabia, como acreditou ser possível que um encontro aleatório numa estação de trem pudesse se transformar em algo real... Ela não acreditou. Ela só queria devolver um álbum. Só achou que fosse importante. E ficou curiosa com aquilo... E criou histórias. E criou estratagemas. E quase desistiu. E quase não abriu a porta quando a pessoa se tornou real.
            Isso é coisa de filme, decerto.
            Decerto que na vida real essas coisas não aconteçam.
            Podemos ser eternos personagens do café, trocando pessoas, metendo gostoso e vigiando-as ou sendo vigiados.
            Podemos ser o pai, cheio de manias até que nos deparemos com um anão de jardim viajante...
            Podemos ser o escritor sem leitores...
            Podemos recitar poemas a quem só quer saber se compramos o bilhete.
            São tempos difíceis para os sonhadores. E a gente sabe (ao menos suponho que saibamos...) que é mais que possível, é fundamental saber ser feliz sozinho. Mas em tempos de solidão, e como diz a música "digam o que disserem, o mal do século é a solidão. Cada um de nós imerso em sua própria arrogância esperando por um pouco de atenção", acreditar poder ser feliz junto é coisa de sonhador.

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Bruta realidade

      Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...