segunda-feira, 30 de setembro de 2019

De peito aberto para o Coração

            Saber de cor é saber de coração. A expressão que usamos para dizer que sabemos muito bem alguma coisa é quando associamos que de-COR-amos. Em algum momento do caminho da existência humana, deturpamos os chamados do coração.
            À sacralidade do sentimento que dá liga à vida e às vivências humanas, atribuímos as demarcações de terras da posse, da família restrita à divisão de herança, aos contratos, ao amor individualista que torna posse aquilo que diz amar, trata-se de bicho, trata-se de gente, sexo, de relações, seja o que for.
            Não sabemos muito bem como isso se deu passo a passo nas diversas formações sociais, mas sabemos que isso é um fato na cultura que se espalhou além-mar, colonizando povos e modos de existência. Não foram os primeiros na história humana a fazê-lo, mas foram os que deixaram registrados seus feitos para contá-los nos mais variados suportes que haviam inventado e viriam a inventar, memificando sua própria história, a partir do seu próprio olhar.
            Essa forma de contar seus feitos aboliu de seus registros a primeira pessoa, fica instituído olhar o outro como um terceiro, mediado por sei lá o que que não é o diálogo da segunda pessoa, é olhar distante, que torna tudo estranho, das artérias da Mãe-Terra às artérias de todas as gentes. Costumava brincar em aulas de gramática que "sujeito inexistente" era a plena negação das divindades, o que fizera chover? Deus? São Pedro? Nanã choveu. Não era aceitável para o homem que acabava de se inventar no centro do mundo.
           O homem branco europeu que acabava de se inventar no centro do mundo deslocara o centro das suas janelas (usando a linda expressão dos povos americanos originários para função semelhante ao que os hindus chamam de chakras) para a cabeça, sobrecarregando seu terceiro olho a ponto de cegá-lo. As divindades, de fato, lhe eram incompreensíveis. Seguimos por essa mesma lógica até os dias atuais, com o cardíaco travado, sem filtrar pelo amor incondicional (aquele que não coloca condições para amar, que não restringe o amor ao que possa dele receber...), sem saber filtrar as emoções que recebe das que expressa, voziferando verdades muitas vezes pessoais como universais, impondo pelo poder da palavra escrita, a única que valida como lei, incontestável porque assim transmitida, de maneira única, após assassinar boa parte de toda ancestralidade que poderia lhe acrescentar outras formas de saber.
           Mal sabia ele que a lei mais imutável deste mundo é A Tempo (acabei de atribui-lhe feminilidade, por toda sua potência, merece estar equilibrada entre energias masculinas e femininas, criando e repartindo a vida). E, aquém de todas suas palavras escritas, a verdade é sentida, seu modo de existência é insano, adoecedor e está matando a todas formas de Vida. E a ancestralidade renasce. Morreu como adubo da terra. Traz mensagens pelo vento. Iansã há de lhes carregar como suspitro sussurrado a quem se permita ouvir.
           Mas homens brancos continuam de coração fechado. Ainda acreditam que é possível exterminar as vidas de petras e pretos velhos e jovens, de xamãs, de caboclos e êres. São homens velhos e doentes. Os poucos que restam, em breve hão de morrer e a Vida há de renascer.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Amores líquidos

            Se a modernidade é líquida, por que não fluímos como a água?
            Tenho me questionado se há uma tendência apocalíptica quanto à nossa vida em sociedade, suas transformações, majoritariamente interpretadas como negativas.
            O que tem ruído são as relações ou a falsa ideia de controle?... Do lado oposto da neurose do controle instituído muito antes de termos câmeras por toda parte, anteriormente regulados por instituições e imposições morais, temos os laços que se desfazem com um click (afinal de contas, a mudança de status de relacionamento nas redes sociais têm valido até como prova nos autos judiciais, quando não, comumente informam a família antes mesmo da conversa: mãe, tô namorando).
            Tal como a iminência da morte, não há mais cerimoniais à disposição obrigatória para o fim do status. Menos ainda para seu início. A questão que coloco, seria sobre a negatividade dessas transformações. Elas seriam problemáticas em si, ou denunciariam a falsa ilusão do controle, lógica na qual nos inserimos desde o homem vitruviano. Como calcular a vida sem parâmetros explícitos?
           Estamos diante do desconhecido, um mundo novo que se abre a partir de novas relações e percepções, estamos rumo ao além-mar, e ao invés do frio na barriga diante do descobrimento de novas possibilidades, reclamamos que não encontramos o caminho para as Índias. Estranhamos e barbarizamos o desconhecido, escrevemos cartas sobre sua selvageria. Pouco tentamos trocar. Em breve catequizaremos a novidade.
          Diante do que não está no nosso controle, temos duas possibilidades: a contemplação e o medo. Do medo do desconhecido surgem as guerras. Da contemplação, as questões genuínas, o saber novo, novamente construído. A admiração. O êxtase.
           Acaso, ao invés de seguir nômades o caminho das águas, insistimos em colocar cerca nas terras, domesticar os animais, e terminar por querer mudar o curso do rio, sem nos perguntarmos o quanto isso é violento...
           Diante das águas sobre as quais não temos controle, aprendamos com os japoneses, que tombam plantas dos edifícios como patrimônio, ao invés do próprio prédio. Realidade material mutável diante da força da tsunami.
          Nem sempre as águas estão sob controle. Deixemos fluir... O controle sempre foi uma ilusão.
          No fundo, do que sentimos saudade, é de poder colonizar o outro. Dá-lhe um contrato a assinar. Manter-se união por hipócritas convenções sociais. Muita sorte temos em poder desfazer os laços diante dos nós no peito, sem nos sentirmos algemados ao outro como lugar.
          Camões já dizia, "é estar-se preso por vontade". Se não desejas estar, certo é que não seja amor. Se preferes as relações como contratos selados inóspitos, preferes a algema por imposição, se liberdades não queres, veja bem que não é à toa uma síndrome não. Abraça-te a teu tarja preta, e dopadamente, vá viver feliz!

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Les temps sont durs pour les rêveurs

              "São tempos difíceis para os sonhadores"
               O fabuloso destino de Amélie Poulin é meu filme preferido. A história da menina solitária e hipocondríaca, que cresce isolada do mundo, cujas únicas relações sociais resumem-se às de trabalho e um vizinho.
              O filme é de 2002, ainda não havia o boom de redes sociais de hoje. Mas é quase como uma premunição... Ela imagina solitária quem seria o dono do álbum de fotos e por que ele coleciona aquelas fotos estranhas. É como construir um quebra-cabeças de ilusões e expectativas sobre o desconhecido. É como stalkear alguém ou como conhecer virtualmente alguém de quem se vai colhendo informações aos pedaços.
             Somos seres aos pedações colados em papéis remontados, buscando significados.
             Somos uma sociedade hipocondríaca, temendo o contato com a vida e o mal que o mundo lá fora possa nos fazer.
            Somos epifanias momentâneas quando alguém se propõe a nos narrar a vida nos ouvidos cujos olhos não enxergam, mas que logo adiante nos devolve solitários à porta do metrô (seguimos viagem extasiados, cegos e solitários até um possível próximo encontro).
             Tens ossos de vidro? Ou te escondes da vida num apartamento com um gato, como se os tivesse?...
            Talvez você seja o vendedor de legumes, rabugento, sempre no piloto automático até que alguém remexe em tudo e nada faz mais sentido quando você descobre que não é o relógio que segue...
            Talvez seja o trabalhador humilhado que sorri aos clientes amigos, tirando-lhes os sorrisos que lhes permite dar, ensinando e aprendendo com eles.
            Talvez seja o homem sentado sempre no mesmo lugar, ciumento, possessivo, trocando de amante, mas seguindo na mesma insegurança, sem nada entender do amor, embora almeje desesperadamente ser amado...
             Quem sabe a mulher sem autoestima, que precisa dar uma bem dada, mas que, ao se apegar a essa foda, ganha de brinde uma relação abusiva com esse homem inseguro, carente e possessivo.
            No fundo esperamos a coragem de Amélie, de no último minuto sair do mundo das ilusões e tentar de verdade. Deixar de lado os diversos estratagemas mirabolantes e simplesmente, abrir a porta quando o amor bate.
            E apenas sentir o vento no rosto sorrindo no final...
            Como ela sabia, como acreditou ser possível que um encontro aleatório numa estação de trem pudesse se transformar em algo real... Ela não acreditou. Ela só queria devolver um álbum. Só achou que fosse importante. E ficou curiosa com aquilo... E criou histórias. E criou estratagemas. E quase desistiu. E quase não abriu a porta quando a pessoa se tornou real.
            Isso é coisa de filme, decerto.
            Decerto que na vida real essas coisas não aconteçam.
            Podemos ser eternos personagens do café, trocando pessoas, metendo gostoso e vigiando-as ou sendo vigiados.
            Podemos ser o pai, cheio de manias até que nos deparemos com um anão de jardim viajante...
            Podemos ser o escritor sem leitores...
            Podemos recitar poemas a quem só quer saber se compramos o bilhete.
            São tempos difíceis para os sonhadores. E a gente sabe (ao menos suponho que saibamos...) que é mais que possível, é fundamental saber ser feliz sozinho. Mas em tempos de solidão, e como diz a música "digam o que disserem, o mal do século é a solidão. Cada um de nós imerso em sua própria arrogância esperando por um pouco de atenção", acreditar poder ser feliz junto é coisa de sonhador.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

Precisamos falar (mal) da ciência sim (ou... só pq hj eu resolvi pôr a mão no vespeiro...)

            Vou aproveitar que devo ser muito pouco lida pra dizer o quase indizível...
             Eu sei... Em tempos como os nossos, tecer autocríticas pode ser deveras complicado, não à toa gritava Renato Russo: não use o que eu disse contra mim!
             E possivelmente, num momento como este, o que se diz em sentido de autoanálise coletiva publicamente poderá ser usado contra a gente... Mas vou aqui do alto das minhas menos de 20 visualizações por publicação correr esse risco...
             E... por onde eu começo e como eu vou dizer isso...
             A verdadeira ciência, o instinto investigativo, precisa de dúvidas. A ciência comercial precisa de certezas. E isso em si já é contraditório... Quando a indústria farmacêutica tem ramificações na indústria alimentícia e ambas bancam centros de pesquisa, há algo de podre no Reino da Dinamarca...             
            Isso não desmerece a pesquisa científica como um todo, mas a tira do lócus de mérito do status de verdade absoluta, não façamos isso, tem potencial de transformar a descoberta de uma teoria incrível numa bomba atômica...
            Já os saberes populares, seguem ignorados e marginalizados... Acredita que o minino curou da garganta com a reza de Dona Benedita? Se tu não acredita, entendes muito pouco da vida, a despeito de todo diploma que tenhas.
            É difícil de convencer as pessoas da importância da Acadêmia, quando esta está muito pouco afeita a descer de seu pedestal para viver a vida das gentes comuns. A despeito de todo debate acadêmico sobre a Norma Culta, quem entrou pelo seu rádio, tomou, cê nem viu e foi parar no vestibular, não o fez usando-a. De fato, uma coisa alimenta a outra, não fosse o interesse acadêmico, o grupo lá não estaria sob o status de literatura. Mas, não tenha dúvida, nunca foi a Acadêmia que lhe pagou as contas... Isso ela faz por muito poucos, no nosso país.
            E se não encaramos isso, não entendemos porque os cortes incomodam tão pouca gente e porque os discursos sobre terraplanagem convencem tantos outros... 
            Óbvio está que muitos dos que usam e compram desses discursos, assim como quem pratica tais cortes o faz pelo ranço da pura inveja, de quem por poder aquisitivo poderia ter estado nesses lugares mas não conseguiu. Tão triste a ignorância manca que não entende nem nosso estado de Corte que jamais lhes permitiu estar lá. Isso aqui desde sempre foi feito pra poucos, pouquíssimos. O valor da corte, meu nobre, está no título, na diferenciação, não no que é para todos (muito menos pra todas). Sem cortar as cabeças das mais de 80 famílias que tomam a cadeira do Congresso por capitania hereditária, jamais seremos uma república, oh, falsos republicanos.
            Óbvio também está que... Foi um dos poucos momentos na história (e... nunca antes na história deste país...) em que se teve um maior acesso ao Ensino Superior e ao desenvolvimento de pesquisa e e tecnologia br. Ou seja... Os cortes têm gênero, têm raça, têm classe social. A universidade se parecia cada vez menos com o estado atual dos três poderes, tinha cada vez menos a sua cara, e "Narciso acha feio o que não é espelho"... A Corte tem medo da Bastilha (ficam estudando pelo youtube e pouco sabem que o que a gera é a falta de brioches...).
            Pouco entendem, e entendem menos e menos ainda de Economia... Sem injetar dinheiro na própria classe média (que disparadamente ocupa as cadeiras da pesquisa neste país, apesar das manchetes do filho do pedreiro sendo doutor depois de dez anos pegando três ônibus...), de onde virá o dinheiro que circula?... Classe média empobrecida é a bancarrota de qualquer Ecônomia. Ela tem boletos intermináveis no portaluvas do seu carro novo... E só ela não sabe que depende do salário (bolsa) no fim do mês...
            Oh nobres, sinto dizer que um texto que deveria falar da Nobre Ciência acabe por falar (amadoramente) de Economia... Sinto muito rebaixá-la dessa forma... Tirá-la de seu nobre status. Quisera eu que ela nada devesse à estrutura econômica das coisas... Não sei mesmo de onde foi que tirei essa ideia... 
            Mas é preciso estar alerta com o status da Ciência. Ela NÃO É NEUTRA. Embora as críticas hoje a ela sejam obscurantistas e de mau-caratismo puro. Se o discurso cola é pq, volto a dizer, há algo de podre no Reino da Dinamarca... E o estatuto da pesquisa atrelado aos interesses de GOVERNO e não de Estado, de interesse da sociedade, das comunidades, é deveras das coisas a mais se observar. 

Existo, logo penso

            Você já teve certeza de alguma coisa em que no momento presente parecia quase impossível, mas que no final era aquilo mesmo que você tinha tido certeza?... Qual seria o nome disso? Fé, intuição, clarividência, inconsciente coletivo?... Te aliviaria saber o que origina esse tipo de situação?...
            Há quanto tempo será que vimos tentando entender as coisas mais do que experenciá-las... Acho que não tem nada de mais também isso de querer entender né... Ou será que só os gênios se permitem perguntar o porquê da maçã cair do pé?... Mas acredito que ainda que ele tenha se perguntado e a partir disso criado teorias posteriormente consideradas leis físicas, eu suponho, quase que com certeza, que ele comeu a maçã e que a sombra da árvore estava uma delícia... (ou quem sabe puro tédio?...).
          Ali havia uma dessas certezas que surgem das dúvidas... "não acredito em nada além do que duvido"... Mas existe uma bússola interna que aponta a direção... Por que será que criamos as bússolas baseada nos astros e por que acreditamos neles?... A regularidade dos ciclos, das sombras, do sol que se põe (alguém aqui já brincou de relógio solar desenhado no chão de areia?...), das maçãs que caem... Por mais que nos perguntemos: de onde vem isso?... A gente sabe que acontece.
          Sentir, viver, existir, pressentir, precede a compreensão.
          Nos tempos onde os ciclos estão alterados, quimicamente, artificialmente, onde o céu de poluição cinza ofusca a vista das estrelas, é um pouco mais difícil de se compreender o céu de dentro, a bússola interna que sempre sabe o caminho certo... Multiplicamos as neuroses, a partir da certeza do controle. E esse controle requer compreensão do processo de compreensão.
            Em tempos (pós) modernos, a necessidade de compreensão precede a existência. Tão artificial quanto a vida que vivemos e a comida que comemos é a forma como existimos.
            A angústia perene talvez seja fruto dessa certeza interna que duvida de si mesma, o tempo todo. Incapazes dos sentidos, cientistas de si mesmos, dissecam-se em busca de observar a carne crua para acreditar se o que sentem é verdade, quando na verdade o que era pra se fazer com o sentimento era tão pura e simplesmente senti-lo; e com a vida, vivê-la.
          Nascemos para viver. E a vida, ela própria, tem-nos sido estranha e parecido artificial.


Bruta realidade

      Ahhhh faz tempo... Faz tempo que não escrevo por aqui... Haveria um motivo?... Talvez a dificuldade em ordenar racionalmente as ideias...